domingo, 14 de dezembro de 2014

Bicicleta e Estados Alterados de Consciência.

Um Método Gnóstico para Preparação de Aulas e Apresentações: Bicicleta e Estados Alterados de Consciência.
Deslocar-me de bicicleta para os locais das minhas atividades como docente (aulas ou apresentações) acabou despertando um interesse especial para um fenômeno: "insights", intuições ou "iluminações" que surgem do nada à mente silenciada pelo movimento repetitivo das pedaladas que, tal como um mantra, parece induzir a um particular estado de suspensão físico e mental.


Rumava de bicicleta para a Universidade Anhembi Morumbi, São Paulo, onde apresentaria o tema “Cartografias e Topografias da Mente” no VI Encontro Científico. Os conteúdos principais da apresentação já estavam prontos, através de uma postagem para esse humilde blog. Mas ainda não tinha um “gancho”, um bom início que convidasse os ouvintes à reflexão, e ainda não tinha um “grand finale”, um fechamento ou uma amarração bem clara para os conceitos.

Fazia sol, calor e, entre as pedaladas fortes em uma das subidas da rodovia Raposo Tavares, veio o “insight”: de uma só vez, como um raio, veio intuitivamente o “tom” da apresentação, dado por um gancho inicial a partir dos incômodos causados pela primeira vez que assisti ao filme “A Origem” (o último filme que havia me incomodado da mesma forma tinha sido Matrix, em 1999): o tema metapsicológico dos sonhos dentro de sonhos lembrava o princípio Teosófico do desdobramento espiritual através dos diversos planos astrais, associados a conceitos das neurociências e ciências cognitivas.

Pois bem, mais uma vez as minhas locomoções de bicicletas resultam em “insights” decisivos que dão um sentido ou uma estrutura narrativa para as minhas aulas e apresentações. Ao longo do tempo percebi a recorrência desse fato, o que, para mim, acabou se transformando em um método: o primeiro passo das minhas aulas e apresentações é assimilar bastantes informações num aspecto acumulativo. Disso resulta um esboço de narrativa (começo, meio e fim) sempre não muito claro e fugidio.

Principalmente em apresentações evito Power Point, pois os slides acabem transformando-se em camisas de força, bloqueando a fluidez do pensamento.

Mas é na atividade física, no transporte de bicicleta para os locais dos eventos que surge a estrutura decisiva, a partir de insights que amarram, num lampejo intuitivo, todas as informações ainda fragilmente organizadas.

Há algo nessa união paradoxal entre o esforço físico ritmado, tal qual um mantra, no transporte de bicicleta, o silenciamento da mente na atividade e o repentino salto qualitativo intuitivo: remete-nos às discussões entre estados alterados de consciência e a gnose, estados de iluminação espiritual tal como discutido pelo professor gnóstico Basilides no princípio da Era Cristã.

Bicicleta e estado alterado de consciência
Em postagem anterior vemos as representações da bicicleta na cultura pop. Para nossa surpresa encontramos uma conexão entre o estado de consciência que a bicicleta proporciona (pelo seu singular design que funde homem e máquina) e o gnosticismo do professor Basilides de Alexandria no século II: o estado mental de "suspensão" que permite silenciar o ruído da linguagem para que ouçamos o espírito que busca a Gnose.

Para ele, a linguagem e a racionalidade são vítimas de uma lógica binária que coloca as qualidades em pares opostos: belo/feio, bom/mal, espírito/matéria e assim por diante. Se na plenitude (o Pleroma, nossa verdadeira morada da qual estamos exilados) há a união dos opostos onde “pensamento e existência cessam porque o eterno é desprovido de qualidade”, ao contrário, no mundo criado (cosmos físico) a linguagem é regida pelo princípio da diferenciação, onde o uno é cindido em pares opostos. Confinados nessa lógica identitária, não conseguimos apreender paradoxos, ironias, simetrias caóticas etc.

Para o Gnosticismo, somente estados alterados de consciência (para Basilides, por exemplo, o silêncio e a “suspensão”) podem fazer o espírito se libertar desses verdadeiros miasmas no qual o pensamento fica aprisionado, numa espécie de looping interminável.

Talvez a Teoria do Caos e o Princípio da Incerteza de Heisenberg na física sejam as tentativas mais arrojadas em romper com o pensamento determinístico e linear (causalidade, ação e reação etc.) para compreender o funcionamento de sistemas complexos e dinâmicos. O exemplo do comportamento da luz, ao mesmo tempo onda e partícula, dependendo das variáveis ambientais e até da própria relação do observador com o fenômeno, rompe com a lógica dos opostos. Na Teologia temos um exemplo parecido com a heresia da Teologia Negativa: afirmar a existência de Deus negando-o (veja links abaixo).

Técnicas criativas como a “Brainstorming” aproximam-se muito dos sistemas complexos e dinâmicos da Teoria do Caos: novas ideias surgem em situações caóticas, onde a racionalidade e a lógica identitária são silenciadas, permitindo insights a partir a liberdade intuitiva.
“Novas ideias” não seria exatamente a expressão correta, mas a descoberta do “tom”, do “espírito”, que poderá ser o elemento que colocará em movimento um esboço de ideias já pré-existentes.

Por experiência própria, a bicicleta tem se constituído num ótimo “método” por criar um surpreendente estado de suspensão basilidiano: o movimento ritmado do corpo ao pedalar, o som ritmado da corrente, engrenagens, a respiração e batimento cardíaco, tendo como fundo o som contínuo “shhhhhh” do contado do pneu no asfalto. Tal como um mantra, confere uma “liberdade ao espírito” ao esvaziar a mente, seja pela repetição de sons e movimento, seja pelo esgotamento físico.

Sistemas caóticos, aleatórios e dinâmicos criam, ao longo do tempo, uma massa crítica que, de repente, produz um salto qualitativo: do nada surgem mudanças de estados, atractores, saltos. Estados alterados de consciência têm o poder de silenciar tanto o corpo quanto a mente. Se o personagem Tyler (vivido por Brad Pitt) do filme “Clube da Luta” estiver certo, a sensação de ter perdido tudo (o corpo e a mente) nos dá a liberdade para a atividade espiritual.

Nada disso tem a ver com “porra loquice” ou “brisa”. O pensamento racional é necessário para nos orientarmos no dia-a-dia desse cosmos físico onde estamos exilados. Porém, suas estruturas são vazias, regidas pela lógica das qualidades opostas. A “fagulha”, o “tom” ou “espírito” necessários para torná-las dinâmicas, complexas ou paradoxais depende desses momentos onde impomos o silêncio aos nossos corpos e mentes. A bicicleta parece reunir condições (principalmente pelo seu design mecânico peculiar que funde corpo, máquina e movimento) para criar esse estado alterado que une, momentaneamente, qualidades opostas: corpo/mente, vigília/introspecção, atenção externa/fechamento em si mesmo, esforço físico/desprendimento mental.

Essa abordagem gnóstica entre as complexas relações entre atividade mental e física e o silenciamento do pensamento lógico nada tem a ver com a prática do ciclismo como exercício terapêutico anti-stress ou estilo de vida saudável para produzir bons pensamentos. Isso está além de qualquer paradigma terapêutico ou de auto-ajuda. O que essa abordagem gnóstica aborda são as profundas relações entre o corpo e os estados alterados de consciência. Indução a esses estados pelas drogas ou alucinógenos (tão celebrada no misticismo underground) apenas ficam na metade do caminho pela ânsia de buscar um atalho pela iluminação sem a disciplina e ascese.

Drogas e alucinógenos resultam, em geral, numa experiência puramente mental, desprezando a corporalidade do pensamento, suas complexas (alquímicas) relações com a experiência corporal (prazer, cansaço, stress, fome, sede, hormônios, cinestesia etc.).

No final fica uma pergunta para mim: essa mesma relação gnóstica entre corpo e mente proporcionado por características peculiares da bicicleta, pode ser também encontrada em outros desportos ou práticas físicas?


MM

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